Desligou o vozerio e foi ao cinema

 

Sobre dar um tempo nas redes sociais

 

Vozes da multidão
 

Até onde consigo lembrar, esta deve ser a quinta vez em que desativo minha conta no Facebook. Se, em todas as vezes anteriores, o intuito principal era me afastar de distrações, agora, o motivo não é menos premente: manter distância de tudo aquilo que me traga aborrecimento sem uma equivalente contrapartida em termos de prazer. Em todos os ensejos em que saí da rede social, temporariamente, ou eu tinha trabalhos a entregar e lidava com deadlines rigorosos, ou eu não andava muito bem de saúde. Mas foi sempre a conjunção desses e outros fatores, o que, ao final, impulsionou minha decisão.

Ao contrário das outras saídas, no entanto, esta tem desencadeado uma série de reflexões úteis. É com certo pesar que começo a admitir, por exemplo, que aquela minha ideia de ter entre meus contatos nessa rede social, especificamente, pessoas com formação, temperamento e filosofia de vida diversos dos meus já não me parece tão interessante (ou tranquila) quanto um dia foi. Suponho que seja natural que, depois de uma certa idade, passemos a nos questionar se não seria mais adequado (saudável, sobretudo) buscar uma aproximação maior daqueles que pensam de maneira afim à nossa. Se eu fosse uma pessoa de perfil e trajetória menos complexos, talvez essa também fosse uma meta a ser seriamente considerada. Mas não sou. Eis aí a origem de boa parte de minhas inquietações.

Falando ainda em Facebook: utimamente, o que vinha sobressaindo ali, para mim, eram os ânimos acirrados por motivação política e a postura dos que têm opinião formada sobre todos os assuntos e precisam ter sempre a última palavra acerca de cada um deles. Dito de outro modo, o falatório estridente, a verborragia oca. E tudo isso, quando não me exaspera às raias do insalubre, apenas me entedia e cansa.
Como acontecia, aliás, na época das listas de discussão. Recordo do dia, a propósito – ali, por volta do início dos anos 2000 -, em que me descadastrei da primeira das dezenas de listas das quais então participava. Nossa! Que prazer maravilhoso e nunca experimentado era aquele? Tão libertadora foi a atitude que, depois do abandono dessa lista, como que em efeito ‘frenesi-dominó’, acabei me desinscrevendo de todas as outras. A Internet, se me revelava ali, não era o melhor lugar para o embate de ideias.
 

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Mas voltando ao Facebook, quer ver situação que também decepciona? Descobrir que os tipos humanos que por ali transitam, com seus dedos em riste, podem ser – mais facilmente do que eu quereria admitir – divididos em categorias.
Comecemos pelos antipetistas monocórdicos, aqueles que colecionam erros pregressos e presentes de Lula, Dilma e correligionários, para incansáveis postagens diárias, sempre, é claro, embebidas em muita virulência. Não nego que acertem em várias de suas críticas, mas falta-lhes mínimas compostura e elegância ao externá-las; isso, quando o que lhes falta, acima de tudo, não é humanidade.

Mantendo uma linha equânime em minhas elucubrações, não poderia deixar de citar uma outra espécie, também com muitos exemplares na rede social, a dos petistas-avestruzes. Esses parecem viver em um universo paralelo, onde as conclusões do Mensalão e da Lava-Jato não passam de um complô burguês amplificado por uma entidade obscura a que eles costumam chamar de PIG. Nesse planeta, de ofuscante cor rubra, os assaltos a Petrobras nunca ocorreram, nem vultosas quantias foram desviadas para financiamento de projetos de poder.

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Neste ponto, vou preferir deixar a sempre espinhosa seara da militância política em redes sociais para passar àqueles personagens, digamos, com preocupações mais mundanas. Farei-o com uma homenagem aos alucinados por “torrents”. Esses, se formos analisar friamente, também têm seu quê de militantes, uma vez que, ostentando hábitos sedimentados, raramente se furtam a pontificar sobre os hábitos alheios. Um exemplo: quando fazem questão de deixar claro que acham o cúmulo do desperdício você pagar pela assinatura de “centenas” de canais de TV a cabo, quando poderia, simplesmente, baixar “na faixa”, os filmes e séries “de fato, essenciais”.

Barbaridade. Três categorias listadas e já estou exaurida. Você, que me leu até aqui, certamente dirá que acha terrível “reduzir” seres humanos dessa maneira. E eu vou concordar. Mesmo sabendo que há quem mais facilmente se preste a essas reduções.
Quer me parecer, entretanto, que está claro que o que aqui escrevo é um desabafo. Menos evidente, talvez, seja o fato de que as críticas que faço têm como principal alvo os ferozes inimigos das nuances e dos meios-termos. Os radicais, em suma.

Avalio voltar ao Facebook uma hora dessas. Afinal, também mantenho ali contato com gente de quem gosto muito. Mas espero que, ao voltar, esteja apta a me estressar menos do que me estressei até outro dia.

 

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