Distanciamento Social * Cap. II

Rio de Janeiro, Março / Abril de 2020

Avistei os cabelos brancos de longe. Voltava da padaria do condomínio e vinha subindo a pequena rampa que desemboca no bosque contíguo ao edifício onde moro. Longe de mim querer constrangê-la, mas algo me impeliu a sustentar o olhar quando a bonita senhora, regulando com a idade de minha mãe, passou por mim. Acenamo-nos com um meneio de cabeça, a cerca de metro e meio de distância – convém enfatizar. “Não me censure”, li em seu olhar acabrunhado, “sei que pertenço ao grupo de risco.”
O que, no entanto, resta reluzente de nossos caminhos cruzados é a imagem da muda de planta que ela trazia em uma das mãos.

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Alguns dias depois de decretada a pandemia da Covid-19 fui ao Carrefour, supermercado mais próximo do Novo Leblon, para comprar itens que não encontro no Petit Marché — mercadinho dentro do shopping do condomínio. Vi por lá mais jovens que idosos.
Já em uma ida posterior ao supermercado, em 3 de abril, encontrei por lá um número maior de clientes e bem mais idosos do que, a essa altura, seria recomendável. Certamente, por ser início de mês e pela proximidade da Páscoa, mas possivelmente também como reflexo do desdém com que o parvo que ocupa o Planalto tem tratado as recomendações sobre distanciamento social.
Nesse dia, me chamou especialmente atenção a quantidade de pessoas identificadas como entregadores da Rappi e do Uber Eats fazendo compras e lotando filas nos caixas. Exato. Lotando — a despeito de, a cada 15 minutos, mais ou menos, uma funcionária pedir, pelo alto-falante, que os clientes mantivessem, entre si, distância mínima de um metro. Face a essa situação, soam até ridículos aqueles procedimentos, à entrada da loja, de medir a temperatura dos clientes e borrifar álcool em gel nos carrinhos de compras.

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Vacina contra a gripe

Medida louvável adotada no condomínio: todos os edifícios e casas do Novo Leblon onde há moradores com mais de 60 anos receberam agentes encarregados de aplicar a vacina contra a gripe. Meus pais tomaram. Em tempos normais, a vacinação ocorre no clube – onde agora funciona, excepcionalmente, uma espécie de “gabinete de crise”.

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